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Com trajetórias próprias, as artistas ampliaram o espaço das mulheres negras no pagode e no partido-alto, cantando afeto, cotidiano e questões sociais
Leci Brandão e Jovelina Pérola Negra têm vozes muito diferentes. Leci pode conduzir um verso com firmeza de quem deseja que cada palavra seja ouvida. Jovelina trazia ao canto uma presença intensa, capaz de fazer uma história cotidiana ganhar o tamanho da roda inteira. Aproximá-las permite perceber a variedade de caminhos que mulheres negras abriram no samba brasileiro.Leci conquistou um lugar pioneiro ao se tornar a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Mangueira. Em sua obra, amor e vida cotidiana convivem com a defesa de direitos, o enfrentamento do racismo, a crítica à homofobia e a valorização das religiões de matriz africana. Sua música mostra que um samba pode convidar à dança e, ao mesmo tempo, pedir atenção ao que acontece na sociedade.
Jovelina ganhou projeção na expansão do pagode carioca dos anos 1980. Tornou-se uma intérprete fundamental de compositores daquela geração e também gravou criações próprias, entre elas “Feirinha da Pavuna”. Sua força estava no domínio da frase, na maneira de contar e na energia com que se relacionava com o ritmo. Ao ouvi-la, é possível imaginar a participação do coro e o movimento das pessoas ao redor.
O partido-alto ajuda a compreender a importância de Jovelina. Nessa tradição, a roda é um espaço de criação compartilhada, sustentado pelo pulso dos instrumentos, pela resposta coletiva e pela inventividade dos versos. A expressão “samba de roda” designa uma tradição específica, especialmente associada ao Recôncavo Baiano. Para falar do percurso de Jovelina no pagode carioca, partido-alto e samba de roda carioca são referências mais precisas.
A presença das duas artistas também ilumina uma questão de reconhecimento. Mulheres sempre participaram da criação e da transmissão do samba, mas tiveram de disputar espaço em ambientes e estruturas de gravação que frequentemente davam maior destaque aos homens. Leci e Jovelina chegaram ao público por trajetórias próprias e ajudaram a ampliar a escuta para outras compositoras e intérpretes.
Suas obras mostram que a afirmação da mulher negra pode acontecer de muitas formas. Está na decisão de escrever sobre um assunto que precisa ser discutido. Está em assumir o centro da roda. Está em cantar uma história de amor sem abrir mão da própria perspectiva. E está na capacidade de transformar experiências de uma comunidade em música que alcança pessoas de outros lugares.
Leci Brandão e Jovelina Pérola Negra deixaram repertórios que continuam convidando à escuta. Uma canção pode oferecer o prazer imediato do ritmo e revelar, em seguida, a inteligência de um verso ou a memória de uma época. Celebrá-las é reconhecer artistas completas: mulheres que construíram linguagem, abriram caminhos e ajudaram o samba a contar mais histórias sobre quem o faz viver.
fonte: https://novabrasilfm.com.br/musica/musica-brasileira/leci-brandao-e-jovelina-perola-negra-duas-mulheres-muitas-maneiras-de-afirmar-o-samba